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Acidentes acontecem...
Acontecem sim. E nas melhores famílias. Estava eu, toda bela e empolgada, decidida a fazer o almoço em um dia desses aí. Resolvi cortar um tomate, para depois misturá-lo ao arroz.
O tomate, todo vermelhinho, olhava pra mim, esperando o corte. E eu, toda compenetrada e empolgada, ficava me perguntando se estava cortando o bendito do tomate da maneira correta e na posição correta. Sim, existe um lado certo para se cortar legumes e frutas – até parece que eu descobri o Brasil, né? Mas não me pergunte qual lado é. Só me mostre um tomate, me deixe ficar frente a frente com ele e assim, te direi qual é.
Bom, enfim, compenetração à parte, eu só queria prestar atenção no que estava fazendo. A faca, toda deslizante, continuava a meu favor. Mas não foi que ela, sem eu menos esperar, resolveu deslizar no meu lindo dedinho? Sim, meu dedo, que nada tinha a ver com isso. A culpada? A faca, claro. Ninguém mandou ela deslizar que nem bailarina quando dança no Teatro Municipal!! Eu só tava pedindo pra ela cortar o tomate. Não o dedo, entendeu?
E o dedo olhava pra mim, com aquela cara: “Como é que vc deixou isso acontecer?” Bom, insultos e dúvidas à parte, a verdade é que o dedo se revoltou totalmente – ou contra mim ou contra a faca – e não queria nem saber de parar de sangrar. Fiz de tudo e nada do coitado parar de jorrar sangue. Foi quando tudo que eu tinha de básico de informação de primeiros socorros foi ladeira abaixo: a minha secretária domiciliar – que coisa chique, não? Mas prefiro chamar de Conceição mesmo – sugeriu: “Januária, vc tem que colocar açúcar no dedo. Aí pára de sangrar!” Pronto! E lá vamos nós com o açúcar, que, por razões óbvias, não deu certo.
Era tanto sangue que as minhas pernas já bambaleavam, as minhas mãos tremiam, minha cara ficava branca e meus olhos já começavam a não enxergar mais nada. Tava ficando quase tudo escuro. O desespero de desmaiar ali, sem ter ninguém ali por perto, me deixava mais assustada. Não que a Conceição não pudesse me ajudar. Muito pelo contrário. Ela me ajudou e muito. Mas quando eu digo alguém, entende-se: necessidade de marido por perto, entendeu? Ou quem sabe mesmo, mamãe ou papai. Sim, os laços nunca são rompidos, não é mesmo?
Foi quando o desespero deu lugar à consciência. Lembrei de um dos métodos de primeiros socorros: quando alguém está quase desmaiando, deita-se a pessoa com a cabeça pra baixo e com as pernas pra cima, para que o oxigênio seja levado com maior rapidez até o cérebro. PLIM!! A idéia surgiu e lá fui eu correndo pra sala de TV.
E lá fiquei por um bom tempo. Até sentir minhas pernas firmes de volta e meu corpo também.
Situação regularizada? Agora é hora de voltar pra cozinha. Sim, ainda tinha o resto do almoço para fazer. E como decidi que alimento é uma benção e eu mesma faço a comida de casa, lá estava eu de volta à cozinha, do lado da faca deslizante e terminando de cortar o coitado do tomate...
O arroz terminado, resolvi fazer salsichas com molho. O cuidado com o meu dedo machucado era tanto que acabei deixando cair a tampa da panela com molho, o qual se espalhou pela cozinha inteira.
Tudo bem. Definitivamente aquele não era meu dia. Tá achando que eu não sei fazer nada, é? Daí o desastre? Não sou tão desastrada assim. É que eu tento. E é tentanto que se aprende. Aprendi que gosto muito – e muito mesmo de cozinhar. Isso porque até então só sabia fazer brigadeiro, patê de atum, fricassê de frango – ulalá!! -, ferver leite e algumas cositas mais. Mas eu tô me achando. E estou adorando. Cozinhar é muito gostoso. E isso não é papo de dona de casa, não, viu? Tente que vc verá!
E dê uma chance ao tomate, ok?

Escrito por Janu às 19h16
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